• Grécia - O Momento da Verdade...

O primeiro passo para quem quer descobrir a verdade sobre a Grécia é esquecer tudo o que ouviu/leu sobre a Grécia na imprensa europeia e centrar-se nos factos realmente importantes. Os números não enganam, os políticos e a imprensa sim. Eles mentem porque irão sempre colocar os seus interesses acima do interesse público. 

Esta última quinta-feira a IMF (International Monetary Fund) foi forçada pelos EUA a divulgar um relatório que os países da Zona Euro tentaram impedir que a IMF publicasse. No relatório a IMF evidencia que as finanças públicas Gregas não são sustentáveis sem um substancial hair-cut, possivelmente necessário incluir write-offs por parte dos parceiros europeus de empréstimos garantidos pelos contribuintes. Grécia irá precisar de pelo menos 50 biliões em ajuda adicional nos próximos 3 anos para manter-se. Os mais atentos concluírem que esta informação já era do conhecimento da IMF em 2010 a avaliar pelas soluções propostas para a crise na Islândia terem sido opostas as que a IMF propôs para solucionar a crise na Grécia! Na verdade parece evidente que a IMF sabia desde o inicio que as medidas propostas em 2010 iriam resultar numa queda do  PIB Grego e num aumento da dívida. Na verdade, as medidas não visaram salvar a Grécia mas sim salvar os bancos europeus - especialmente os bancos alemães e franceses - ao permitir eles passarem a dívida pública grega dos seus balanços para o balanço do BCE e consequentemente colocar a dívida pública grega a ser suportada por todos os contribuintes dos países da Zona Euro para evitar um colapso dos bancos.

No mesmo dia, a Wiki Leaks divulgou o conteúdo de um relatório secreto da NSA relativo a escutas no gabinete da Chanceler Merkel que evidencia que ela está ciente que as medidas que estão a forçar a Grécia a aceitar não vão resultar e irão colocar o país numa crise ainda mais profunda.

O Euro é uma experiência falhada que começou com um problema estrutural que nunca foi resolvido - as dívidas públicas dos países deveriam ter sido consolidadas numa única divida pública europeia. A Europa tornou-se exatamente no que Margaret Thatcher alertou que iria acontecer e a razão pela qual ela impediu que o Reino Unido aderisse ao Euro. 

O bailout da Troika tem sido um dos maiores falhanços da última década. Ninguém na Troika irá alguma vez aceitar responsabilidade por este desastre monumental. Os tecnocratas europeus vão lutar por manter os seus salários chorudos e os seus cargos na UE até às últimas consequências. Ironicamente, a maior parte deles não foram sequer democraticamente eleitos. O panorama político a nível mundial não é nada animador. O Presidente do BCE - Mario Draghi  é um ex-Goldman Sachs e tem que tomar a direcção e defender os interesses de quem o colocou nesse cargo. Christine Lagarde da IMF é uma advogada com nenhum background em trading/economia e pelos últimos acontecimentos parece que irá seguir a direção que os EUA lhe indicarem. Obama é, provavelmente, o pior presidente dos EUA em toda a história do país que para além de estar a destruir totalmente a economia americana, está a dar o seu melhor para o emergir de uma III Guerra Mundial. 

A situação do referendo na Grécia é muito semelhante à que ocorreu na Escócia. O voto está dividido por gerações. Os mais jovens detestam a Troika e querem sair da Zona Euro porque não deslumbram qualquer futuro. Os mais velhos votam SIM para preservar as suas pensões. Os mais novos foram forçados a deixar o seu país ou aos 30's 40's anos tem que continuar a viver em casa dos pais. Isto é uma batalha de gerações exatamente como ocorreu na Escócia. Como uma grande parte dos mais novos já deixaram o país ou estão a viver longe da sua cidade natal, foram impedidos de votar, os resultados poderão ser influenciados por este facto e  não traduzir o que a maioria realmente quer o que irá ser um prelúdio para o emergir de uma nova guerra civil. 

Esta situação tem alto risco de contágio aos outros países da Europa. Bruxelas irá resistir até ao fim porque agora tornou-se uma questão de manter o poder e os seus interesses pessoais. O que o Hitler e Napoleão não conseguiu pela força das armas, Bruxelas está a tentar pela via das leis/austeridade. A economia europeia está a ser esmagada, tudo em nome de beneficiar os detentores de obrigações do Estado. Esta linha de pensamento não poderá resolver a crise europeia... 
  



2 comentários:

rui disse...

Parece-me ser uma análise fria e cheia de conteúdo, aliás como vem sendo hábito nos teus artigos

Permite-me apenas discordar um pouco na comparação que fizeste ao referendo na Escócia

Escócia/reino unido/Inglaterra é mais que um problema económico. É social, geracional com muito recalcamento à mistura

João disse...

Só agora vi este post. Parece-me bastante errático, devo dizer.

Quando digo errático, é verdade toda a sequência de passar a dívida dos bancos para os estados é verdade e tal...

Agora, a Grécia ia ter sempre uma grande depressão porque foi um país que viveu uma bolha do euro (basta comparar o crescimento até 2008 com outros países... à custa de dívida e transferência de dinheiro do norte para o sul). Se ajustarmos as evoluções do PIB desde 2001 (ou 99 como preferirem), a Grécia está apenas ligeiramente abaixo dos restantes países do euro. O problema é que sem moeda própria, não conseguem fazer o que sempre faziam no Dracma (desvalorizar) equilibrando o emprego com reduções salariais reais. Não sei se é possível ou não o fazer dentro do euro, mas o problema é a partilha do custo do ajustamento (idem em PT).

Concordo que o Euro está a falhar pelas razões que indicaste.
Sobre o democraticamente eleitos, achas viável os presidentes dos bancos centrais serem eleitos? (nem nos EUA que elegem tudo e mais alguma coisa o fazem)
E o BCE tem alguma independência, mas nunca age totalmente sem o apoio das inst. europeias (aqui sim, podia-se melhorar muita coisa). O FMI é eleito indirectamente, também, tal como nos 70 e 80 e tal como na intervenção gloriosa (óbvio, com austeridade, mas com desvalorização e ajuste rápido) na Islândia.

Obama, o pior presidente da história? Isto vem a propósito de quê? Depois de Bush ter criado a bolha do imobiliário - e lá os republicanos adoram fazer o papel dos socialistas europeus no que toca a contas públicas -, a culpa é do Obama? Até ver, tem a economia normalizada (as contas não são famosas, mas historicamente ainda não se pode condená-lo)... falam-se de políticas que podem originar novas bolhas (não sei, sinceramente), mas parece-me absolutamente dramática essa análise.

A III WW, mais uma vez, depois das palermices de Bush, os erros de Obama só estão amplificados por os EUA estarem há 10 anos fragilizados e esgotados internacionalmente com Iraque e Afeganistão.

Por último, e não menos importante, acho que erras completamente na análise histórica ao comparar com Hitler. Há semelhanças (com enormes diferenças, claro), mas são inversas:

- Na década 20, os humilhados eram a Alemanha e os humilhadores os aliados. E o extremismo aparece daí na Alemanha. Aqui parece haver um erro de "Bruxelas", sim, por deixar a situação do sul deteriorar-se até ao ponto de surgirem movimentos radicais.

Para já, ainda estamos distantes de guerras, mas óbvio que o cuidado neste continente é sempre muito pouco.


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